
Há pessoas espertas, não há? Pessoas que põem palavras nos sentimentos, parecem até poetas. Mas depois, de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de “pantufas”, nem sei. Na verdade, decepcionam-nos um bocadinho, e quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e por tudo o que valeram, não podem voltar a ser (só!) nossas amigas, partindo então. Imagino nesse lugar com um aglomerado de pessoas que já nos disseram tanto, que não se transformaram num inferno dentro de nós, mas também nunca chegaram ao céu, embora, por vezes, surjam-nos nos sonhos como um vulto que atravessa o nosso coração, mas que já não provocam arrepio, muito menos um calafrio, que são aqueles sentimentos que nos desabotoam a cabeça e nos deixam a arder de paixão e a tremer de medo, tudo ao mesmo tempo. Afinal, não são nem amigos nem amores. Transformam-se em pedras no sapato. Ou às vezes nem isso. Portanto vou chamar-lhe cemitério dos poetas, um lugar silencioso onde habitam aqueles, que ao contrário do que desejávamos, foram morrendo para nós. Às vezes até assusta. Às vezes atormenta, porque magoa descobrir que também nós vivemos sem viver, por entre esses amigos, amores e amantes. E por fim, ainda somos tocados, por vezes, pelo entusiasmo e sonhos levemente acordados, quando desejamos com muita força que essas pessoas ressuscitem e regressem. Pessoas essas, que embora mortas, sejam mágicas e intocáveis, pelo menos, para o nosso coração de manteiga.
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